Artigo de Rodrigo Ribeiro Sabatini e Laurent Durieux(Instituto Lixo Zero Brasil / IRD – One Forest Vision)
A COP-30: o planeta convocado à escuta
A COP-30, que será realizada em Belém do Pará, é mais do que uma conferência climática. É um retorno simbólico da humanidade ao coração da floresta — um chamado à escuta do que é ancestral, simples e vivo.
O secretário-executivo da ONU para o Clima, Simon Stiell, afirmou recentemente que “é prioridade da COP-30 ligar pontos entre ciência e o dia a dia das pessoas” (Folha de S.Paulo, 12/10/2025). Esse é o eixo mais profundo da conferência: aproximar o conhecimento técnico das práticas culturais e dos saberes cotidianos que sustentam modos de vida sustentáveis.
A rede de dormir amazônica representa exatamente isso — um elo entre a sabedoria empírica e a ciência contemporânea. Ela nasce da observação da natureza, da ergonomia do clima, da necessidade de higiene e leveza; mas também expressa um modo de pensar o mundo: o equilíbrio entre o corpo e a terra, entre o descanso e o respeito.
Os saberes da Amazônia: memória viva e horizonte
A Amazônia é uma biblioteca viva de saberes, escrita em folhas, ventos e rios. Cada gesto de seus povos carrega uma pedagogia — a do cuidado, da observação e da reciprocidade.
A rede de dormir é um desses saberes condensados. Inventada pelos povos originários, ela traduz uma cosmologia: dormir sem ferir o solo, repousar em harmonia com o clima, abrir o corpo à leveza que a floresta oferece.
Suspensa entre o céu e a terra, a rede é uma metáfora do viver amazônico — ela não domina o espaço, apenas o compartilha; não pesa sobre a natureza, apenas flutua sobre ela.
Na rede, o corpo aprende o ritmo do vento, o tempo do descanso e o valor do silêncio. É um objeto-pensamento, uma tecnologia ancestral de harmonia que o mundo moderno precisa reaprender.
Valores amazônicos como força de presença
Da Amazônia brota um modo de viver que resiste ao tempo e às fronteiras. São valores que o mundo contemporâneo — saturado de pressa e ruído — precisa redescobrir:
- Harmonia, que substitui o domínio pela convivência;
- Autonomia, que reconhece o direito de cada ser existir ao seu modo;
- Leveza, que se opõe ao peso da pressa e do acúmulo;
- Cuidado, que transforma o ato de descansar em gesto de respeito.
Esses valores, inscritos no cotidiano amazônico, são práticas civilizatórias. E o Brasil, ao trazê-los à COP-30, pode inspirar uma nova forma de cooperação global: a convivência como política pública e o descanso como gesto civilizatório.
A Diplomacia da Rede
A “diplomacia da rede”, proposta neste texto, nasce do encontro entre cultura e paz. É a ideia de que o Brasil pode se apresentar ao mundo através de um gesto simbólico e universal: oferecer a rede de dormir como linguagem de convivência.
A rede é metáfora e instrumento:
- Suspensa entre dois pontos, une sem hierarquia;
- Aberta e porosa, acolhe sem dominar;
- Leve e portátil, se espalha sem ocupar.
Essa diplomacia não se impõe — ela se deita. Não conquista — acolhe. E, nesse gesto, o Brasil revela sua identidade mais profunda: a de um país que não quer dominar o mundo, mas descansar com ele.
Ao propor a diplomacia da rede, o Brasil reafirma sua vocação para o diálogo, a hospitalidade e o equilíbrio. A floresta ensina que tudo está conectado — e a rede é sua tradução mais simples e bela.
A rede como instrumento de paz
Em um tempo de guerras, deslocamentos e exaustão planetária, a rede pode se tornar um instrumento de paz.
Enquanto campos de refugiados se erguem em chão frio e árido, a rede oferece a possibilidade de descansar com dignidade, de suspender o corpo e a dor.
Distribuir redes produzidas na Amazônia para comunidades afetadas por conflitos, catástrofes ou desastres climáticos seria um ato humanitário de profunda beleza e simplicidade. Seria o Brasil oferecendo ao mundo não armas nem discursos, mas descanso, cuidado e abrigo.
Em um planeta cansado, o gesto de ensinar a descansar é o primeiro passo para a reconciliação.
A rede na COP-30: proposta de adoção simbólica
Sugere-se:
- Que comunidades artesãs e povos tradicionais produzam redes para ambientar os espaços da conferência;
- Que cada delegação internacional receba uma rede amazônica como presente simbólico;
- Que estações de descanso em rede sejam instaladas nos espaços da COP-30, convidando ao bem-viver;
- Que o Governo Brasileiro lance a Iniciativa Internacional da Diplomacia do Descanso, inspirada na Amazônia, na ciência do conforto e na cultura da paz.
O Brasil que ensina a descansar
O Brasil é um país que sabe celebrar, acolher e descansar. É tempo de transformar essa vocação em linguagem diplomática.
Que a COP-30 em Belém seja lembrada como a conferência onde o mundo aprendeu — com a floresta — que cuidar do planeta também é cuidar do corpo e da alma.
“A rede é o equilíbrio entre o céu e a terra — um abraço que o povo amazônico estende ao mundo.”
@Rodrigo Sabatini Presidente do Instituto Lixo Zero Brasil (ILZB) Membro do Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável (CDESS)
Laurent Durieux Durieux Pesquisador do Instituto de Pesquisa para o Desenvolvimento (IRD) Coordenador da Iniciativa One Forest Vision
Belém do Pará, 2025