No marco do Dia Internacional Lixo Zero, celebrado todos os anos em 30 de março, organizações, governos e cidadãos são chamados a repensar a forma como produzimos, consumimos e gerimos os resíduos. A data foi proclamada pela Assembleia Geral das Nações Unidas em 2022 com o objetivo de promover a redução de resíduos e incentivar modelos de produção e consumo mais sustentáveis.
A jornada busca gerar consciência sobre a crise global dos resíduos. Em nível mundial, são geradas entre 2,1 e 2,3 bilhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos por ano, e sem mudanças estruturais esse número pode chegar a 3,8 bilhões de toneladas anuais até 2050, agravando a crise climática, a poluição e a perda de biodiversidade (Kaza et al., 2018; PNUMA, 2024).
Neste ano, o tema do International Zero Waste Day #ZeroWasteDay, impulsionado pelas Nações Unidas, é “Food Waste”. O movimento Lixo Zero no Brasil e na América Latina busca fortalecer alianças (em linha com o ODS 17) para combater a perda e o desperdício de alimentos.
Segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), cerca de 14% dos alimentos se perdem antes de chegar ao comércio varejista em todo o mundo. Além disso, 931 milhões de toneladas de alimentos — equivalentes a 17% do total disponível para os consumidores em 2019 — terminaram como desperdício em residências, supermercados, restaurantes e outros serviços de alimentação, de acordo com o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (FAO, 2019; PNUMA, 2021).
Geração de resíduos na América Latina
De acordo com a Avaliação regional do fluxo de materiais de resíduos sólidos municipais na América Latina e no Caribe (EVAL, 2023), publicada pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), os países que geram maiores volumes de resíduos municipais na região são:
- Brasil: 73,31 milhões de toneladas por ano
- México: 47,67 milhões
- Argentina: 21,48 milhões
- Venezuela: 14,88 milhões
- Colômbia: 14,88 milhões
- Peru: 10,21 milhões
- Chile: 8,38 milhões (ano de referência 2021)
Esses dados refletem a necessidade urgente de fortalecer políticas públicas de redução, reutilização, compostagem e reciclagem em toda a região, além de avançar para modelos de economia circular e gestão sustentável de materiais (BID, 2023).
O que significa Lixo Zero?
Segundo a Zero Waste International Alliance (ZWIA), o conceito Lixo Zero é uma meta ética e visionária que orienta práticas sustentáveis centradas na conservação dos recursos por meio de produção e consumo responsáveis. Seu objetivo é evitar a geração de resíduos, reutilizar materiais e eliminar a incineração e a disposição em aterros, mantendo os recursos em circulação dentro da economia (ZWIA, 2018).
Florianópolis (Brasil) rumo ao Lixo Zero:
Neste ano, a cidade de Florianópolis recebeu reconhecimento internacional por suas políticas públicas e metas rumo ao Lixo Zero, conforme destacou Rodrigo Sabatini, presidente do Instituto Lixo Zero Brasil (ILZB):
“Neste ano, Florianópolis ganha destaque global ao ser anunciada como uma das 20 cidades Lixo Zero do mundo, em iniciativa vinculada à ONU-Habitat. O reconhecimento projeta a cidade internacionalmente — mas, acima de tudo, amplia sua responsabilidade.
Ser uma cidade Lixo Zero não é um título. É o reconhecimento de um caminho que já está em curso.
A avaliação internacional destaca Florianópolis por suas altas taxas de desvio de resíduos, sustentadas por três pilares fundamentais: a segregação obrigatória, a educação ambiental e a forte participação dos catadores de materiais recicláveis. Esses elementos colocam a cidade entre as experiências mais consistentes em construção no mundo.
Ao longo dos últimos anos, Florianópolis estruturou uma coleta seletiva com ampla cobertura, investiu na criação e expansão de centrais de valorização de resíduos e fortaleceu iniciativas comunitárias e institucionais voltadas à redução e ao reaproveitamento de materiais. Trata-se de um trabalho contínuo, que envolve poder público, cooperativas, organizações e a própria população.
Esse avanço é real — e precisa ser reconhecido.
Mas também é insuficiente diante do desafio.
Ainda há resíduos recicláveis sendo descartados de forma inadequada, materiais contaminados que perdem valor e uma dependência significativa de aterros sanitários. O reconhecimento internacional não encerra esse processo. Ele eleva o nível de exigência.
O Lixo Zero propõe uma ruptura com a lógica histórica de abandonar, enterrar ou queimar resíduos. Trata-se de reduzir a geração, manter materiais em circulação e eliminar o desperdício como destino inevitável.
Isso exige participação coletiva.
Não existe cidade Lixo Zero sem cidadania ativa. Cada escolha cotidiana — o que consumimos, como utilizamos e como descartamos — influencia diretamente o sistema. Ao mesmo tempo, cabe ao poder público seguir avançando em infraestrutura, educação e políticas públicas consistentes.
Mas há um ponto central: a dignidade.
Os catadores de materiais recicláveis são protagonistas dessa transformação. O reconhecimento internacional de Florianópolis também é, em grande parte, resultado do trabalho desses profissionais, que historicamente sustentam na prática aquilo que hoje se consolida como estratégia.
Florianópolis tem agora a oportunidade de se afirmar como referência internacional — não apenas pelo que já fez, mas pelo que está disposta a fazer a partir daqui.
O reconhecimento da ONU é um marco.
Mas o verdadeiro compromisso começa agora.
Ser uma cidade Lixo Zero não é sobre o que se anuncia.
É sobre o que se constrói, todos os dias”.